Esse é um espaço que procura retratar as nuances dos seres humanos ambientados na cidade da Bahia.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
O LEITOR DE KAFKA
Ao chegar no inferno trazido por um dos demônio-capacho, Moré, cachaceiro inveterado, ouviu o diabo dizer que ele esperasse, pois o miserável da escuridão estava ocupado levando sofrimento às pessoas de todo o mundo, aproveitava uma iminente ausência de Deus que coordenava uma reunião pela paz com Deuses do Olimpo, Orixás, Incas e Maias, todos os santos católicos, Buda, Alá, Krishna, Osíris, Odin, Thor e os cambau. No entanto, o chifrudo ao saber que Moré morreu entalado por uma pedra de dominó, a bucha de sena, não se contentou e quis ouvir a história. Moré contou-lhe que mais uma vez, entre centenas de vezes, dormiu bêbado no sofá da sala com a boca babosa e escancarada. Seu sobrinho, uma criança de dois anos, enfiou-lhe goela abaixo a peça de jogo sufocando-o e levando-o a óbito. Em desdém, o diabo mirou-o de cima a baixo e disse que ia investigar. Leitor de Kafka, dizia sempre que a ideia de criar Gregor Samsa havia partido dele, do satanás desgraçado, que incentivava a proliferação de baratas. Mas nem mesmo os demônios-capacho que lhe serviam, acreditavam nessa mentira dos diabos, no entanto ninguém ousava contrariá-lo. Sendo assim metamorfoseou-se do inseto e subiu pelo ralo da cozinha. Passeou pelos salgadinhos que estavam sendo servidos no velório deixando o miasma repugnante e foi para a sala. Viu a criança, alheia à presença da morte sentada no colo da mãe. Foi em direção do menino corriqueiramente como uma barata para lhe causar medo, asco e choro. A criança, ao ver aquele inseto, em atitude pueril e lúdica, pulou em cima e esmagou-lhe, fazendo espirrar a gosma nojenta. Ao voltar para o inferno, o diabo só tinha um lado da cara e o chifre que sobrou estava quebrado. Os demônios-capacho riam de soslaio, Cérbero gania e não sabia onde enfiar suas três cabeças, só Moré se pronunciou.
– Viu? Eu lhe disse que aquele menino tinha arte do cão, nem você pode com ele... Eu avisei...
terça-feira, 20 de abril de 2010
LADRÕES
O professor estava desempregado, ganhava uns trocados dando aulas de técnicas redacionais para estudantes que desprezavam a leitura e escrita. Isso lhe cobria de asco e indignação aos jovens do século XXI. Andava à esmo todos os dias quando não havia aulas para dar, conheceu então o ladrão Azul que era preto como a noite. Abre parênteses, haverá quem apareça e queira indignificar o texto porque o autor diz que o ladrão era preto. Ora, ele era preto não porque os ladrões só são pretos, aliás, a maioria dos ladrões contemporâneos é mestiça, são até homens públicos lá no Distrito Federal, os pretos são doutores, professores e escritores aloprados, uma minoria é ladrão. Azul era preto porque seu pai que também foi ladrão era preto e sua mãe que vendia abará no Largo da Lapinha, próxima a uma igreja católica onde o pároco iniciava as missas com a dança de Oxum e por isso foi punido pelo alto clero da arquidiocese primaz do Brasil, não se sabe se por preconceito ou intolerância à dança dos orixás africanos ou tão somente para a manutenção da ordem e tradição católica apostólica romana, portanto era preta e ele saiu preto e tornou-se ladrão como o pai para indignar a sociedade hipócrita, medíocre e metida a besta, era o que ele sempre falava. Fecha parênteses. Os dois, Azul e o professor, que era mestiço chegado a preto, passaram a andar e beber juntos no Largo Dois de Julho. Lá pelas seis da manhã, juntava-se a eles a prostituta Verônica de Assis, conhecida no meio da negociata amorosa como Alessandra Cibeli. Era ela quem pagava a cerveja e o prato de aipim com ensopado que os três traçavam durante a aurora rosada. Em seguida Azul roubava uma ou duas bolsas de estudantes ou de dondocas que passavam dentro do carro com os vidros arriados em direção ao Comércio de Salvador. Naquela noite, além dos roubos de Azul e da ludibriação do professor no jogo de cartas, Verônica de Assis, ou AC, havia negociado seu corpo ao jovem Arquimedes Gonçalves. Ela trajava somente um cinto dourado que lhe abraçava o quadril e acentuava mais seu corpo cheio de curvas voluptuosas, durante a dança, subiu na mesa do rapaz e esfregou a vagina sem pelos, muito bem perfumada e bem cuidada, apesar da profissão, no rosto extasiado e boquiaberto de Arquimedes. Alessandra soube pelo próprio “josé manoel” que ele morava sozinho num apartamento na Rua Banco dos Ingleses, próximo ao Campo Grande, zona nobre de Salvador. AC, ou Verônica de Assis, organizou o assalto ao apartamento do então leso, tonto e simplório Arquimedes. O professor, com ares de professor, foi ao prédio disfarçado, cheio de blush pelo rosto docente e apresentou-se como tal profissional que fora designado não se sabe por quem a ensinar Arquimedes as boas maneiras de um texto dissertativo. Azul e Alessandra Cibeli apareceram em seguida com uma nota falsa de despejo para o tal apartamento, o porteiro diante da confusão ordenou que subissem e se acertassem com o inquilino que para ele era o proprietário. E por isso a desconfiança lhe tomou por inteiro, dizem que o ofício de portaria é simplesmente estudar a vida alheia. A polícia chegou, matou Azul, prendeu o professor que se urinou nas calças e ouviu os depoimentos de Arquimedes Gonçalves, da sua esposa Verônica de Assis, eternos apaixonados... E do porteiro que se indagava coçando o queixo com uma dúvida atroz:
– Não sabia que seu Arquimedes era casado...
– Não sabia que seu Arquimedes era casado...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
CONTO DE AMOR QUASE IMPOSSÍVEL
Sérgio Ricardo era dono do próprio nariz. Ouvia opiniões, mas não as acatava, era somente um pensamento que prevalecia. O dele. Tinha o rosto oval e os olhos oblíquos e profundos de quem vivia a pensar o que e como fazer as coisas, além de uma careca quase saliente que ele tentava disfarçar com um boné de grife qualquer. Conheceu Adrianinha Palito através do poeta Tony Amor. Um gordo vagabundo que achava que a vida era um mar de álcool e a atmosfera composta de fumaça de marijuana. Denominava-se engenheiro lexical e semântico. Os dois, SR e Tony Amor, estavam no Mercado Modelo, evidentemente enchendo a cara, quando Sérgio Ricardo falou pela primeira vez com Palito através do telefone celular de Tony Amor. Ela, no outro lado em um aparelho obsoleto e miserável, lá no fim de linha de São Tomé de Paripe, subúrbio ferroviário de Salvador, vizinha da residência presidencial quando o presidente sem dedo, ou outros com muitas mãos, vem à Bahia em busca de paz e bênçãos dos orixás. Triste paradoxo presente em toda a Salvador, cidade do axé, cidade do horror, de um lado o Presidente da República Federativa do Brasil com praia serena e particular separados por um muro e guardas armados da força militar tupiniquim, além de bicos e muxoxos indignados, do outro lado, mais fedorento e ontológico, uma mixórdia de pagode, casebres, lixo e cachaça baldeada com álcool noventa graus. Sérgio Ricardo apaixonou-se por Adrianinha Palito, paixão vice versa,que tinha problemas de relacionamento. Ela relutou ao sentimento quente e perverso da paixão anunciadora, não adiantou nada. Tony Amor armou o encontro em um restaurante no bairro não menos longínquo de Plataforma. Um cacete armado que assava galeto na famigerada gordurenta “televisão de cachorro”. Só engataram namoro depois que responderam mutuamente à mesma pergunta.
– Qual seu problema de relacionamento?
Quase em uníssono as respostas.
– Nada... Um probleminha (os dois em constrangimento apaixonado)É que... Eu tenho mau hálito...
Mesmo desconfiados um com o outro nos primeiros dias, beijaram-se à vontade e de nada reclamaram. Curtiram então o pôr do sol no subúrbio ferroviário com Tony Amor, o poeta adiposo, recitando o poema nerudiano “Já és minha”.
Carlos Vilarinho 18/04/10
– Qual seu problema de relacionamento?
Quase em uníssono as respostas.
– Nada... Um probleminha (os dois em constrangimento apaixonado)É que... Eu tenho mau hálito...
Mesmo desconfiados um com o outro nos primeiros dias, beijaram-se à vontade e de nada reclamaram. Curtiram então o pôr do sol no subúrbio ferroviário com Tony Amor, o poeta adiposo, recitando o poema nerudiano “Já és minha”.
Carlos Vilarinho 18/04/10
sexta-feira, 16 de abril de 2010
LENDA URBANA
Tudo aconteceu na Travessa Vinte e Um de abril, pedaço de asfalto que liga as duas avenidas, Joana Angélica a Sete de Setembro, centro de Salvador. Gildásio era viciado em sexo, autodenominava-se "Tiger Woods" tupiniquim. Lurdes procurava um homem. Gildásio fizera amor com a esposa antes de sair de casa. Tempos atrás tornara-se impotente, depois de ejacular precocemente durante toda a adolescência e os primeiros anos de homem adulto. Em face disso, adquiriu à socapa uma prótese portátil. Segredo que ele não revelava, nem mesmo bêbado. Tira e coloca a prótese de acordo com seu desejo. Confessou ao médico que só tirava para limpar, e sem perder tempo colocava novamente. Nesse dia, ao chegar no bar embaixo do puteiro que freqüentava diariamente, conheceu Lurdes. Aprumaram-se e foram para o quarto. Lurdes ficou nua e Gildásio também. No entanto quando a mulher encaixou esperando a pegada forte sentiu algo molengo e sem vontade.
– Puta que pariu... Pôrra, caralho mole! Esqueci a pôrra da prótese no banheiro de casa!!! Berrou Gildásio em desespero terrificante.
Assim terminou a lenda do “homem de pau duro”...
– Puta que pariu... Pôrra, caralho mole! Esqueci a pôrra da prótese no banheiro de casa!!! Berrou Gildásio em desespero terrificante.
Assim terminou a lenda do “homem de pau duro”...
terça-feira, 13 de abril de 2010
CAPÍTULO DE "TRÊS TIROS NUMA HISTÓRIA DE AMOR"
(1)
TAMPINHA
Sempre gostei dos poetas. Somos praticamente da mesma idade, sou um pouco mais velho e dei um duro danado para o bar ficar como está agora. Até entrevista para a televisão e destaque em revista cultural apareci. Minha moqueca de miragaia e a rabada com agrião que Lurdinha, minha cozinheira, faz, ganhou fama. Tempero dos deuses como Vadinho falava. Aliás, ele vive reclamando do banheiro. Tem razão o maconheiro poeta. Tenho que dar um jeito ali. É interessante que desde que a nossa amizade começou, quando tínhamos quinze, dezesseis anos, Vadinho e Joel, que nunca se desgrudaram, eram sempre os primeiros a me incentivar. O que hoje é um restaurante de proporções médio para grande porte, começou com uma simples barraquinha de cigarros e balas. Trabalhei duro, mas sempre contei, sobretudo com a ajuda daqueles dois. Conheço-os muito. Às vezes chego a pensar que conheço Vadinho, por exemplo, mais até do que ele próprio. Inúmeras foram as demonstrações idiossincráticas relativas a Vadinho que presenciei e algumas cheguei a prever. Uma vez a Maria Aparecida, hoje mulher de Bernardino, jogava insistentemente um charme meio sem graça para cima de Vadinho. Desde que começou a fazer recitais de poesia aqui no bar a presença feminina tornou-se o dobro dos homens. A sedução de Maria Aparecida não instigava Vadinho, ele ria por fora, mas por dentro estava mareado, nauseabundo. O tempo passou, abstrato ou não, e cada um tomou seu rumo. Vadinho e Joel Cachaça tornaram-se quase irmãos. Um sabia o que o outro pensava só no olhar entre si. Luís e Mariozinho eram partes da família poética. Esses quatro formavam a verve literária que muito ajudou ao meu restaurante dar certo. Tinha, portanto um apreço e uma consideração acho que sem limites e infinita por eles.
Notei nos últimos saraus que Vadinho estava diferente. Mais comedido e pensativo, como se algo o estivesse acossando. Ao mesmo tempo ouvia histórias sobre ele e uma mulher casada que desconfiava quem era, mas não tinha certeza. Margarete rondava o restaurante praticamente todos os dias no horário que ele costumava encontrar-se com Joel e Luís ao fim de tarde. Mariozinho sempre chegava mais tarde por que fechava a barraca no Mercado e vinha correndo soltar a voz ou dar pitacos nas composições de Luís, além das poesias de Vadinho e Joel. Um dia limpava umas mesas próximas ao telefone público e vi quando Margarete entrou e discou duas vezes o número da casa de Vadinho. Muxoxou, xingou Amelinha com ira e saiu. Voltou em seguida, discou novamente e ficou em silêncio. Discou de novo e dessa vez falou com a empregada de Vadinho, Joaninha. Falou rispidamente e pude ouvir uma frase.
– Você não vai fazer o que eu mandar, não é sua negra de merda? Pois, saiba que a arma já está em minha bolsa.
Aquilo me deixou alerta e preocupado. Quase paro a viatura do sargento Dias, mas depois desisti. Não sabia de fato o que ocorria. E agora Vadinho está morto. No último sarau, ouvi umas falas do poeta. Não costumava prestar atenção, a casa ficava cheia em dias de poesia e o corre-corre meu e dos garçons era intenso. Mas nesse último sarau algo fez com que eu prestasse atenção nele e em alguns da platéia. Vadinho recitou algo diferente, falou da inveja alheia. Falou que a inveja morava numa gruta escura e que nem o sol nem favônio chegavam até lá. Referiu-se a um tal de Ovídio e depois eu mesmo fiquei sabendo que favônio era o vento próspero. Já disse que não sei porque naquele momento parei para ouvir o que ele dizia. Entretanto ao olhar a platéia, procurando se havia alguém querendo cerveja ou petiscos. Vi quatro rostos contornados e mascarados de ódio e raiva. Espólios viperinos de monstros. Margarete, mestre Galegão, que era o mesmo Bernardino, e o filho deste, Lage. Havia outro que eu não sabia quem era, contudo já vira aquele rosto pelas redondezas. A inveja e a política eram temas favoritos de Vadinho. Quase em todos os recitais ele citava Shakespeare, falava de Otelo e Iago. Antonio e Shylock. Ouvindo sempre o que os poetas conversavam acabei ficando meio letrado. Foi assim que consegui comparar Margarete à Medusa, a górgona que transforma as pessoas em pedra. Bernardino a Iago, o invejoso que acabou com Desdêmona, mulher de Otelo. E Lage à Shylock, querendo um pedaço da carne de Vadinho. Aquele outro rosto desconhecido, cheio de ira, denotava uma estupidez débil. Não lembrava de nenhum personagem assim. Em Shakespeare ou outro autor qualquer que os poetas sempre discutiam à porfia. Amelinha, Harmonia e a empregada Joaninha com o filho Joãozinho estavam numa mesa ao canto direito do palco. As três embevecidas pelas palavras da trupe poética. O menino brincava distraído com um carrinho de brinquedo, de vez em quando olhava o palco e a platéia extasiada no momento das palmas. Ele, o menino Joãozinho, olhou para o fundo e algo lhe chamou a atenção. Como se tivesse assustado subitamente recolheu-se rapidamente ao colo da mãe. Aquilo me deixou apreensivo e em suspense. Não sei dizer porque, nem o que, mas havia algo no ar. Por último quando me voltei para o palco, percebi Vadinho meio travado. Joel olhava-o com um semblante preocupado e Luís errou algumas notas que nunca errara. Então Mariozinho veio até a mim e disse:
–Tampa, arrume a mesa da gente lá dentro da cozinha.
Concordei de imediato e saí para providenciar. Vi até o momento que Mariozinho chamou Amelinha e Antero ao canto e falar-lhes algo, depois entrei e fui arrumar a mesa dos poetas. Vadinho disse que estava tonto e que vira um velho desesperado acenando para ele. Saímos eu, Mariozinho, Luís e Antero, irmão de Amelinha, procuramos o tal velho e não vimos ninguém. Joel ficou em suspense olhando na direção de Bernardino e Lage. Depois Vadinho e os amigos serenaram e começaram a beber cerveja. Amelinha e Joaninha juntaram-se a eles. Não vi mais Harmonia, Antero disse que ela fora embora mais o marido. Engraçado, ele disse isso e em seguida vi Lage e o pai arrumando uma bolsa grande ou uma mochila. Não consegui saber do que se tratava, só vi a bolsa e um volume estranho que Bernardino passou para o filho e que este depois o devolveu com um semblante carregado não sei se de medo ou de ânsia. Comentei furtivamente essa cena com Antero, foi meu erro. Deveria comentar com outra pessoa, com Amelinha talvez. Com Joel ou Mariozinho. Antero era muito oculto e sem atitude. Fiquei com o foco dividido entre a casa, o restaurante, e minha preocupação com os poetas, sobretudo Vadinho. Foi então que do balcão vi passarem dois vultos para o fundo do restaurante onde ficava a cozinha. Acho que demorei demais. Quando fui ver quem eram, todos ouvimos três estampidos e três, não mais dois, vultos saíram apressadamente do bequinho que dava para o fundo do restaurante. Consegui ver uma camisa azul ou preta de costas. Em seguida o grito desesperado de Amelinha. Vadinho estava caído com uma bala, pelo menos era o que se via, alojada na altura do coração. Um furor aflito tomou a todos que estavam no restaurante. Muita gente saiu sem pagar e por sorte havia um médico entre os clientes. Olhou o ferimento e mandou que levássemos imediatamente a um hospital. Vadinho foi internado de madrugada. Enquanto conversávamos no corredor do hospital, ficamos a par de algumas informações que até então não sabíamos. Levantamos suspeitos, dentre eles, estava Margarete. Soubemos que a ex - mulher de Vadinho vinha sofrendo de psicose maníaco-depressivo, um tal de transtorno bipolar. Encontraram-na logo depois da tragédia andando a esmo e sem falar. Harmonia disse que Lage a trancou em casa e saiu novamente. E o outro que nos inspirou desconfiança, não sabíamos de quem se tratava. Chegou até nós também a informação de que Bernardino e Lage foram vistos horas depois bebendo cerveja em plena madrugada. Estavam nervosos e ariscos. Disseram também que de vez em quando, Bernardino soltava umas gargalhadas demoníacas. Luís comentou que aquele rosto do desconhecido não era tão desconhecido. A imagem vinha-lhe na memória mas ele não conseguia fazer o download para reconhecer. Não achávamos que havia mais gente envolvida. O sargento Dias e o
investigador Carlos Antonio, um gordinho com riso irônico na face, começaram as perguntas e em seguida saíram em diligência...
Carlos Vilarinho
TAMPINHA
Sempre gostei dos poetas. Somos praticamente da mesma idade, sou um pouco mais velho e dei um duro danado para o bar ficar como está agora. Até entrevista para a televisão e destaque em revista cultural apareci. Minha moqueca de miragaia e a rabada com agrião que Lurdinha, minha cozinheira, faz, ganhou fama. Tempero dos deuses como Vadinho falava. Aliás, ele vive reclamando do banheiro. Tem razão o maconheiro poeta. Tenho que dar um jeito ali. É interessante que desde que a nossa amizade começou, quando tínhamos quinze, dezesseis anos, Vadinho e Joel, que nunca se desgrudaram, eram sempre os primeiros a me incentivar. O que hoje é um restaurante de proporções médio para grande porte, começou com uma simples barraquinha de cigarros e balas. Trabalhei duro, mas sempre contei, sobretudo com a ajuda daqueles dois. Conheço-os muito. Às vezes chego a pensar que conheço Vadinho, por exemplo, mais até do que ele próprio. Inúmeras foram as demonstrações idiossincráticas relativas a Vadinho que presenciei e algumas cheguei a prever. Uma vez a Maria Aparecida, hoje mulher de Bernardino, jogava insistentemente um charme meio sem graça para cima de Vadinho. Desde que começou a fazer recitais de poesia aqui no bar a presença feminina tornou-se o dobro dos homens. A sedução de Maria Aparecida não instigava Vadinho, ele ria por fora, mas por dentro estava mareado, nauseabundo. O tempo passou, abstrato ou não, e cada um tomou seu rumo. Vadinho e Joel Cachaça tornaram-se quase irmãos. Um sabia o que o outro pensava só no olhar entre si. Luís e Mariozinho eram partes da família poética. Esses quatro formavam a verve literária que muito ajudou ao meu restaurante dar certo. Tinha, portanto um apreço e uma consideração acho que sem limites e infinita por eles.
Notei nos últimos saraus que Vadinho estava diferente. Mais comedido e pensativo, como se algo o estivesse acossando. Ao mesmo tempo ouvia histórias sobre ele e uma mulher casada que desconfiava quem era, mas não tinha certeza. Margarete rondava o restaurante praticamente todos os dias no horário que ele costumava encontrar-se com Joel e Luís ao fim de tarde. Mariozinho sempre chegava mais tarde por que fechava a barraca no Mercado e vinha correndo soltar a voz ou dar pitacos nas composições de Luís, além das poesias de Vadinho e Joel. Um dia limpava umas mesas próximas ao telefone público e vi quando Margarete entrou e discou duas vezes o número da casa de Vadinho. Muxoxou, xingou Amelinha com ira e saiu. Voltou em seguida, discou novamente e ficou em silêncio. Discou de novo e dessa vez falou com a empregada de Vadinho, Joaninha. Falou rispidamente e pude ouvir uma frase.
– Você não vai fazer o que eu mandar, não é sua negra de merda? Pois, saiba que a arma já está em minha bolsa.
Aquilo me deixou alerta e preocupado. Quase paro a viatura do sargento Dias, mas depois desisti. Não sabia de fato o que ocorria. E agora Vadinho está morto. No último sarau, ouvi umas falas do poeta. Não costumava prestar atenção, a casa ficava cheia em dias de poesia e o corre-corre meu e dos garçons era intenso. Mas nesse último sarau algo fez com que eu prestasse atenção nele e em alguns da platéia. Vadinho recitou algo diferente, falou da inveja alheia. Falou que a inveja morava numa gruta escura e que nem o sol nem favônio chegavam até lá. Referiu-se a um tal de Ovídio e depois eu mesmo fiquei sabendo que favônio era o vento próspero. Já disse que não sei porque naquele momento parei para ouvir o que ele dizia. Entretanto ao olhar a platéia, procurando se havia alguém querendo cerveja ou petiscos. Vi quatro rostos contornados e mascarados de ódio e raiva. Espólios viperinos de monstros. Margarete, mestre Galegão, que era o mesmo Bernardino, e o filho deste, Lage. Havia outro que eu não sabia quem era, contudo já vira aquele rosto pelas redondezas. A inveja e a política eram temas favoritos de Vadinho. Quase em todos os recitais ele citava Shakespeare, falava de Otelo e Iago. Antonio e Shylock. Ouvindo sempre o que os poetas conversavam acabei ficando meio letrado. Foi assim que consegui comparar Margarete à Medusa, a górgona que transforma as pessoas em pedra. Bernardino a Iago, o invejoso que acabou com Desdêmona, mulher de Otelo. E Lage à Shylock, querendo um pedaço da carne de Vadinho. Aquele outro rosto desconhecido, cheio de ira, denotava uma estupidez débil. Não lembrava de nenhum personagem assim. Em Shakespeare ou outro autor qualquer que os poetas sempre discutiam à porfia. Amelinha, Harmonia e a empregada Joaninha com o filho Joãozinho estavam numa mesa ao canto direito do palco. As três embevecidas pelas palavras da trupe poética. O menino brincava distraído com um carrinho de brinquedo, de vez em quando olhava o palco e a platéia extasiada no momento das palmas. Ele, o menino Joãozinho, olhou para o fundo e algo lhe chamou a atenção. Como se tivesse assustado subitamente recolheu-se rapidamente ao colo da mãe. Aquilo me deixou apreensivo e em suspense. Não sei dizer porque, nem o que, mas havia algo no ar. Por último quando me voltei para o palco, percebi Vadinho meio travado. Joel olhava-o com um semblante preocupado e Luís errou algumas notas que nunca errara. Então Mariozinho veio até a mim e disse:
–Tampa, arrume a mesa da gente lá dentro da cozinha.
Concordei de imediato e saí para providenciar. Vi até o momento que Mariozinho chamou Amelinha e Antero ao canto e falar-lhes algo, depois entrei e fui arrumar a mesa dos poetas. Vadinho disse que estava tonto e que vira um velho desesperado acenando para ele. Saímos eu, Mariozinho, Luís e Antero, irmão de Amelinha, procuramos o tal velho e não vimos ninguém. Joel ficou em suspense olhando na direção de Bernardino e Lage. Depois Vadinho e os amigos serenaram e começaram a beber cerveja. Amelinha e Joaninha juntaram-se a eles. Não vi mais Harmonia, Antero disse que ela fora embora mais o marido. Engraçado, ele disse isso e em seguida vi Lage e o pai arrumando uma bolsa grande ou uma mochila. Não consegui saber do que se tratava, só vi a bolsa e um volume estranho que Bernardino passou para o filho e que este depois o devolveu com um semblante carregado não sei se de medo ou de ânsia. Comentei furtivamente essa cena com Antero, foi meu erro. Deveria comentar com outra pessoa, com Amelinha talvez. Com Joel ou Mariozinho. Antero era muito oculto e sem atitude. Fiquei com o foco dividido entre a casa, o restaurante, e minha preocupação com os poetas, sobretudo Vadinho. Foi então que do balcão vi passarem dois vultos para o fundo do restaurante onde ficava a cozinha. Acho que demorei demais. Quando fui ver quem eram, todos ouvimos três estampidos e três, não mais dois, vultos saíram apressadamente do bequinho que dava para o fundo do restaurante. Consegui ver uma camisa azul ou preta de costas. Em seguida o grito desesperado de Amelinha. Vadinho estava caído com uma bala, pelo menos era o que se via, alojada na altura do coração. Um furor aflito tomou a todos que estavam no restaurante. Muita gente saiu sem pagar e por sorte havia um médico entre os clientes. Olhou o ferimento e mandou que levássemos imediatamente a um hospital. Vadinho foi internado de madrugada. Enquanto conversávamos no corredor do hospital, ficamos a par de algumas informações que até então não sabíamos. Levantamos suspeitos, dentre eles, estava Margarete. Soubemos que a ex - mulher de Vadinho vinha sofrendo de psicose maníaco-depressivo, um tal de transtorno bipolar. Encontraram-na logo depois da tragédia andando a esmo e sem falar. Harmonia disse que Lage a trancou em casa e saiu novamente. E o outro que nos inspirou desconfiança, não sabíamos de quem se tratava. Chegou até nós também a informação de que Bernardino e Lage foram vistos horas depois bebendo cerveja em plena madrugada. Estavam nervosos e ariscos. Disseram também que de vez em quando, Bernardino soltava umas gargalhadas demoníacas. Luís comentou que aquele rosto do desconhecido não era tão desconhecido. A imagem vinha-lhe na memória mas ele não conseguia fazer o download para reconhecer. Não achávamos que havia mais gente envolvida. O sargento Dias e o
investigador Carlos Antonio, um gordinho com riso irônico na face, começaram as perguntas e em seguida saíram em diligência...
Carlos Vilarinho
segunda-feira, 29 de março de 2010
ANIVERSÁRIO DA CIDADE DO SALVADOR
Salvador, a cidade da Bahia, faz hoje, 29/03/2010, 461 anos. Uma velha adolescente e aporrinhada. Escrevi um artigo e o jornal "A TARDE" publicou. Para os que não são da cidade, infelizmente ou felizmente, vai aí o texto na íntegra do jornal.
PARABÉNS, SALVADOR!
Sempre imaginei as caras de Cabral ao despontar e visualizar Porto Seguro, o capitão das naus e o escrivão Caminha na tensão do encontro de duas civilizações distintas, e a do primeiro governador da cidade de São Salvador Tomé de Souza, mesmo trazendo com ele degredados e outros bichos, a beleza da cidade deve tê-los deixados boquiabertos. Provavelmente um misto de Exu e Hermes fez abrir seus olhos e bocas em assombro. Resguardo contra estrangeiros e povoação forte para a cidade de Salvador, era o queria Dom João III.
Resguardo não há mais, povoação aos montes e barrancos também. Certo que os barrancos, foram cobertos de cimento e pedra segurando muitas vidas, mas na contramão do progresso, o transporte coletivo é uma mixórdia nojenta e mal aplicada. Dias atrás aumentaram a tarifa em surdina e os cidadãos desembolsam mais dez centavos, que foram acrescentados ao antigo preço, por um serviço imundo, sem qualidade e absurdamente caro.
Sem Cabral, Caminha e Tomé, a cidade de Salvador faz festas para os antigos resguardados estrangeiros, antigos desafetos, chamando-os e recebendo-os sem cerimônia em carnaval de camarotes que antigamente, os nativos, diga-se, sentavam-se às portas de casa para rirem e se divertirem com os caretas e os jatos de lança perfume da Rua Chile e Praça Castro Alves. Salvador e sessenta anos de trio elétrico em 2010. Lembro-me que vi pela primeira vez o trio de Dôdo e Osmar num sábado que não era de carnaval, mas antecedia o domingo de carnaval, subindo a ladeira da Montanha no ano de setenta e nove. Salvador tinha então só quatrocentos e trinta anos. Foi mágico. Eu saía do antigo cinema Glauber Rocha e me deparei com o pôr do sol refletindo raios ultravioletas e um caminhão de cores e música. O chão da praça balançou. Não havia camarotes, nem cobrança, o show foi para o povo do poeta. Tomé de Souza não fazia ideia da metrópole engarrafada com ar de turismo tropical que se transformou a cidade que governou. Salvador não é mais um porto seguro, nem abriga capitães de areia.
Parabéns, Salvador!
PARABÉNS, SALVADOR!
Sempre imaginei as caras de Cabral ao despontar e visualizar Porto Seguro, o capitão das naus e o escrivão Caminha na tensão do encontro de duas civilizações distintas, e a do primeiro governador da cidade de São Salvador Tomé de Souza, mesmo trazendo com ele degredados e outros bichos, a beleza da cidade deve tê-los deixados boquiabertos. Provavelmente um misto de Exu e Hermes fez abrir seus olhos e bocas em assombro. Resguardo contra estrangeiros e povoação forte para a cidade de Salvador, era o queria Dom João III.
Resguardo não há mais, povoação aos montes e barrancos também. Certo que os barrancos, foram cobertos de cimento e pedra segurando muitas vidas, mas na contramão do progresso, o transporte coletivo é uma mixórdia nojenta e mal aplicada. Dias atrás aumentaram a tarifa em surdina e os cidadãos desembolsam mais dez centavos, que foram acrescentados ao antigo preço, por um serviço imundo, sem qualidade e absurdamente caro.
Sem Cabral, Caminha e Tomé, a cidade de Salvador faz festas para os antigos resguardados estrangeiros, antigos desafetos, chamando-os e recebendo-os sem cerimônia em carnaval de camarotes que antigamente, os nativos, diga-se, sentavam-se às portas de casa para rirem e se divertirem com os caretas e os jatos de lança perfume da Rua Chile e Praça Castro Alves. Salvador e sessenta anos de trio elétrico em 2010. Lembro-me que vi pela primeira vez o trio de Dôdo e Osmar num sábado que não era de carnaval, mas antecedia o domingo de carnaval, subindo a ladeira da Montanha no ano de setenta e nove. Salvador tinha então só quatrocentos e trinta anos. Foi mágico. Eu saía do antigo cinema Glauber Rocha e me deparei com o pôr do sol refletindo raios ultravioletas e um caminhão de cores e música. O chão da praça balançou. Não havia camarotes, nem cobrança, o show foi para o povo do poeta. Tomé de Souza não fazia ideia da metrópole engarrafada com ar de turismo tropical que se transformou a cidade que governou. Salvador não é mais um porto seguro, nem abriga capitães de areia.
Parabéns, Salvador!
segunda-feira, 1 de março de 2010
O VELHO 18 contos cotidianos e fantásticos

A coletânea de contos “O Velho – 18 contos cotidianos e fantásticos” do escritor Carlos Vilarinho prioriza a originalidade e a imaginação fantástica. O autor baiano apresenta uma linguagem própria, sem efeitos e com muita clareza. Desnuda o ser humano que está a sua volta e a si mesmo tornando-o também protagonista de sua narrativa singular. Nos contos “Cartas de amor” e “O Degolado” fatos distintos que se entrelaçam ao final em memória longínqua dos personagens afins. “A Dama” e “O Ogro Quiromaníaco”, contos premiados em dois concursos literários com temática erótica, o primeiro em Brasília e o segundo em São Paulo e em Vitória (ES), além de “Cheiro das Entranhas” presenteiam ao leitor tênue visão de desejo e que passeia no imaginário de qualquer pessoa. Os contos “Esquecidos de Si Mesmos”, “Usura, Pederastia e Clemência Para os Néscios”, “O Aposentado” e ” O Homem – Pimenta” são dramas de natureza genuinamente humana, a inveja que permeia e assola a vontade de quem não se estabelece no cotidiano do bojo social. “O Boçal”, “Transe Ritualístico”, “O Fotógrafo”, “A Crise de Seis Mortes”, “O Homem Que Não Queria Morrer” e “Olho Frio” são textos onde o fantástico e o terror real e inimaginável se misturam em suspense e atmosfera também dramática. Por sua vez e em contraponto ao terror apresentados por esses citados, em “A Dama dos Olhos de Esmeraldas”, “Tudo É irreal” e “O Velho”, são histórias de imaginação dramáticas e acolhedoras. Finalmente fecha com um “Conto de Natal” onde a atmosfera natalina está presente no personagem Sofia.
Carlos Vilarinho
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